Arquivo mensal: agosto 2014

Desfocado

O filho no quarto, a mãe na sala e então.

_ Mãe, você viu meu foco?
_ A última vez que vi estava dentro do seu quarda-roupa.
_ Já olhei no guarda-roupa e não está.
_ Então procura na sua escrivaninha.
_ Já olhei a escrivaninha, embaixo da cama, atrás da porta e nada…
_ Se eu for aí e achar o seu foco, faço você engolir.
_ Seria ótimo!

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Jaqueta jeans

Nunca se viram mais gordos. Jamais voltarão a se ver. Quanto mais comum é o ônibus e rápido é o trajeto, mais intensos são os olhares.

Ela olha por que tem interesse. Como que apreciando a vista.
Enquanto ele, por ciumes dela. Como quem demarca o território.
Eu olho como quem vislumbra uma vitrine. Como quem encontrou o que tanto busca. Como quem acaba de esbarrar no tão sonhado desejo.

Achei bonita a jaqueta jeans.

Três presentes

Tenho uma teoria: quando estamos para nascer, Deus (ou aquilo que você acredita) nos concede presentes que serão muito úteis durante toda a vida. São três os tipos de presente: beleza, inteligência e dinheiro. A maioria das pessoas nasce com apenas um presente. Poucos sortudos nascem com dois. E tem os raros, que nasceram com a bunda virada pra lua, como dizem por aí, com três presentes.

Pois bem, quem nasce com dinheiro, trata logo de comprar sua beleza e, em alguns casos, a inteligência. Quem nasce com beleza, trata logo de usá-la para conseguir dinheiro. E isso é tudo. Quem nasce com inteligência, trata de entender como ter beleza e dinheiro e não entrar em crise existencial por estar se rendendo aos padrões de estética e consumo impostos a esta geração pós-moderna. (gosto assim, sem vírgulas)

Voltando a mim. Eu realmente gosto de ser inteligente. É meu presente favorito (favorito como? se não recebi os outros…), mas, como tudo nessa vida, tem seu lado ruim e bom, ao mesmo tempo.

Juro que é involuntário. Meu cérebro costuma agir como um investigador do CSI, uma pista aqui, com aquela pista acolá, de repente um estalo e chego à conclusão. Quando são conclusões relacionadas à profissão, aos estudos ou questões práticas da vida, é maravilhoso. Funciona como uma vantagem competitiva, à la Darwin.

Mas quando essas conclusões são sobre pessoas, e pessoas com as quais me relaciono… (PALAVRÃO BEM CABELUDO). Então tem início um processo de autoflagelação, no qual já sei o final daquela situação e fico pré-ocupado e a espera do que virá. Meu psicólogo diz que ansiedade demais não é bom. E diante dele, pergunto e respondo.

_ E quem diz que eu consigo ser diferente? Já tentei e não dá.

Para não dizer que minhas conclusões sobre as pessoas são sempre ruins, costumo dizer que nunca são boas. Funciona. Conforta. Ameniza. Eu sei o que você deve estar pensando enquanto lê esse texto: que decepção faz parte da vida, que as coisas são assim mesmo, que é preciso se conformar com isso, que et cetera e tal.

Volto aos presentes. Quem nasceu com dinheiro, rega suas decepções com champanhe em um luxuoso hotel em Paris. Quem nasceu com beleza, trata logo de se arrumar e ir para a primeira festa, ou o primeiro aplicativo, ou qualquer lugar cheio de pessoas que massagearão seu ego com elogios interesseiros. Já quem nasceu com inteligência, quando sofre alguma decepção, escreve textos com conclusões questionáveis.

Não é estranho?

Em menos de um mês, faríamos três. Não é estranho?

Depois de muito tempo evitando ver-te, meu olhar acaba de cruzar com o seu em uma foto qualquer de amigos em comum. Amigos? Bem, acho que há um erro de concordância quando se usa as palavras amigo e gay na mesma frase. O jeito como eles agem, não é estranho?

Volto ao seu olhar de ressaca, que nessa foto me pareceu doce e fez doer. Acho que por que até dia desses era amor e havia planos, sonhos, verdade, amizade, esperança, respeito… Hoje não há nada, além de uma ausência forçada, um evitar obrigado. O fim, não é estranho?

Até ontem a noite era tudo e hoje amanheceu nada. É estranho!

Como também é estranho que todo amor verdadeiro que eu vi ou me contaram, tem uma característica comum: o impedimento. Amores de verdade nunca ficam juntos. A literatura, o cinema, a música e a TV mostram isso todos os dias. Nas artes inventamos finais felizes, que na vida real seriam, no mínimo, utópicos.

Separando o amor verdadeiro do resto, o que resta são interesses disfarçados de amor.

Romeu “ama” Julieta por que é proibido. Adriane “ama” Airton por que ele é um herói.

Thiago “ama” Pedro por que ele é sarado. Daniela “ama” Ronaldo por que ele é rico.

Renata “ama” Valmir por que está grávida. Amanda “ama” Pietra por que ela traz conforto.

E quando este interesse, hora disfarçado de beleza, hora de dinheiro, ou seja lá o que for, quando o interesse acaba, todos partem o coração e partem para o próximo amor, quer dizer, interesse. Ser descartável, não é estranho?

Não quero ser hipócrita. É óbvio que primeiro algo em mim interessa a você e vice-versa. Minha crítica está no fato de permanecer nisso e não evoluir. Se o amor é um jogo, quem se entrega de verdade perde de 7 a 1 e nem passa da primeira fase. Estou cansado de estar sempre nessa mesma fase do jogo.

Todo um que eu conheço sonha ser feliz a dois. E isso tudo me leva a uma conclusão: perdoou você rápido demais e você a mim, de menos. E deve ser porque a sua melancolia combina com a minha poeticidade.

 

Vinte e seis de agosto, nove e quarenta e dois.

Enquanto isso no lustre do castelo…

E ela diz…

_ Genteeeee!!! Pode parar com isso! Os caras mais interessantes que eu conheço, não se interessam por mulheres… Difícil a vida, viu?

é não você

É o ronronar. É o olhar doce e inocente do seu gato.

É o beijo silencioso. É a demonstração secreta de carinho.

Não é você.

É o olhar de culpa pela não aceitação. É a explosão de ser o que é.

É o verde da roupa de cama, da camisa e dos seus olhos.

É a mão que desliza sobre a barba. Não é você.

É a presença completa. É a bandeja de frutas vermelhas.

É a satisfação em receber bem quem visita.

Não é você.

É o pedido para ver aqueles vídeos no youtube.

É a história que se repete e, eu ansioso, desconfio do final.

É o meu cheiro que marca e agrada. Não é você.

É a possibilidade de felicidade que sempre invade.

É a esperança que me alcança e ao meu coração amansa.

Não, é você.