A doçura da Docinho

Engraçada essa vontade incontrolável de ligar para ela. Acabo de ligar, ela atende e diz que está rodeada de amigos. Estão reunidos em um barzinho perto de casa. Passa das 23h quando terminamos de falar sobre banalidades da vida, das nossas. Então, antes do tchau de hoje ela engata.

_ Filho, aqui em frente a este bar tem uma praça e nela um cachorrinho peludinho. Eu acho que o Tom fica muito sozinho em casa e esse cachorro está sozinho aqui. Como você acha que eu posso resolver isso?

Tenho certeza que este tal cachorrinho peludinho vai estar em casa antes das 24h e o Tom vai perder os privilégios de filho único. A Docinho tem dessas e eu acho uma doçura só. Então, sem me comprometer, disse.

_ Ah, mãe, veja com o Andrews. E então risos invadiram nossa conversa.

Ela, quando alegre de álcool, esquece de desligar o celular ao término das ligações. Eu, depois do tchau, espero mais alguns minutos na linha para ouvir se está tudo bem. Geralmente ouço risadas, conversas fiadas e, quase sempre, ela solta palavras adocicadas sobre mim. Nossa relação se parece muito com brigadeiro de panela.

Momentos assim me inquietam: o que será da vida sem a doçura da Docinho?

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Pedido de casamento pós-moderno

Nunca te vi, mas me parece muito familiar. O tom da sua pele, a cor do seu cabelo, o formato da sua boca, o jeito como me olha… já te vi em algum lugar. Fato.

Mas de onde te conheço? Não estudamos, nem trabalhamos juntos, caso contrário me lembraria. Já sei.

Nós, apaixonados humanos carentes, temos um lugar no cérebro, ou seria no coração? Enfim, nós temos um lugar onde idealizamos a pessoa ideal. É de lá que te conheço. Só não esperava encontrar-te assim. De repente.

Pois bem, voltemos ao seu olhar. Quanto a mim, olho mesmo. Meu olhar curioso filma tudo ao meu redor. Pois bem, te filmei. Ao rever as imagens gravadas, está lá nítido como um dia de sol, você me olha…

Você me olha como quem vê um desejo. Como quem vê um medo. Com um olhar doce.

Você me olha como quem quer, mas não deve. Como quem adoraria e não pode.

Você me olha como um leão que comeu vegetais a vida toda e agora está diante de um suculento pedaço de carne. Seu olhar saliva.

Então, o ônibus faz uma curva brusca e eu acordo do meu transe imaginativo. Percebo que estou perto do meu ponto, que existem outras pessoas ao meu redor. Chove lá fora.

Olha pra você de novo. Você está ali. É real. E você continua me olhando como quem adoraria que o ônibus estivesse vazio, para se aproximar, perguntar meu nome e contar piadas.

Se você me dissesse ‘oi’. Eu diria ‘sim’. E nos casaríamos na semana seguinte. Só que não.

Sozinho, às duas

São quase duas. O sono tenta me derrubar, mas o aperto no peito e os pensamentos a mil não deixam. Ouço mil vezes aquela música que apareceu ao acaso na Internet e serviu perfeitamente como uma camiseta básica da Hering. Clarice Falcão, eu me lembro…
São tantas coisas boas. Algumas ruins. O amor. Sempre ele. Se fosse possível esquecê-lo. Não é? Talvez eu só precise do colo da mãe. Mas e quando a mãe se for? Quem aliviará a dor? Quem dirá que vale a pena acreditar no amor?
Eles. Todos eles. Dizem que vale a pena. O amor. Acreditar. Nós. Eu. Será?
A vida é dura. E dói. Então, para aliviar a dor, pessoas se escolhem por amor. Para serem como chocolate em dias de TPM. As boas relações se parecem muito com brigadeiro de panela. Ser doce é preciso.
A verdade sobre amor é que para ser dois, antes é preciso ser um. Eu não aprendi ainda. Deve ser mais uma daquelas durezas da vida, como nascer, morrer ou conviver consigo mesmo sem enlouquecer. Coisas que só se pode passar sozinho.
Sozinho! Eu preciso estar sozinho.
Eles concordam. Todos eles. E já passa das duas…

Sobre leite com café

Gosto de tomar leite, com café. Bebo sempre que preciso me sentir abraçado.

Gosto desde a mamadeira e deve ser por isso que me conforta tanto.

Se preciso me dar alguns minutos de ternura em meio a essa vida dura, preencho a xícara com leite, então me ponho a colorir o leite com café.

Por fim, os coloco dentro do micro-ondas, como um grão de areia dentro da concha. Então, se reparamos bem na cor, café com leite se tornam um e ficam perolados.

Em Mogi Mirim bastava 1 min e o micro-ondas deixava o leite com café no ponto. Em Curitiba, preciso esperar 40 segundos a mais. Acho que isso explica muita coisa.

Sobre pseudo amigos

Você… eu confiei em você. Tanto que te contei segredos íntimos que nem minha mãe sabe.

E você trocou meus segredos por uma possibilidade de estar com alguém. Não esperava que você fosse usar meus segredos para comprar beijos, abraços… orgasmos.

E não me pergunte como eu sei. Talvez por quê você apareceu do nada no bate-papo e fez perguntas seguindo um roteiro óbvio. Como só os advogados e a serpente do Éden sabem fazer.

Se tivesse amizade por mim, saberia que eu jamais cairia nessa. Não eu. Que pena as coisas serem assim.

Na minha pequena lista de amigos, agora há menos um.

Como imãs

Estou no lotado ônibus laranja.

Do lado de fora do vidro, vejo uma cidade linda.

Dentro, vejo pessoas com olhares que se repelem, como imãs. As vezes estão face a face, mas os olhares não se olham.

Meu olhar é curioso. Se não fora, não teria observado tal como fiz. E para minha surpresa, seu olhar também é. Nossos olhares se atraem, como imãs.

Dito isto, resta saber se você quer me dizer oi. Eu quero.

O interfone

Estou sozinho no apartamento. No prédio. Na rua. No bairro. Na cidade. No estado. No país. No continente. No planeta. No sistema solar. Na galaxia…

Depois de viajar em pensamento por todos esses lugares, continuo sozinho. Então caminho até o corredor, pego o interfone, coloco no ouvido para ouvir a rua. Que não diz nada.

Eu, doce. Você, diabetes.

Tento ser correto sempre. Na maioria das vezes consigo ser apenas doce.

Tive que ir embora, pois não consigo conviver com meus erros. E estar ao seu lado seria encarar meu erro de frente, de lado, de costas… Isso é insuportavelmente salgado pra mim.

Sobre nossa… Como dizer? Sobre o que se passou conosco: não desisto. Apenas volto ao ponto de onde nunca devia ter saído.

A propósito, você me entristeceu ao dizer, nas entrelinhas, que minha amizade não é suficiente.

Minha amizade, é tudo o que tenho a oferecer. Se é doce demais, desculpa.