Arquivo mensal: fevereiro 2015

Pedido de casamento pós-moderno

Nunca te vi, mas me parece muito familiar. O tom da sua pele, a cor do seu cabelo, o formato da sua boca, o jeito como me olha… já te vi em algum lugar. Fato.

Mas de onde te conheço? Não estudamos, nem trabalhamos juntos, caso contrário me lembraria. Já sei.

Nós, apaixonados humanos carentes, temos um lugar no cérebro, ou seria no coração? Enfim, nós temos um lugar onde idealizamos a pessoa ideal. É de lá que te conheço. Só não esperava encontrar-te assim. De repente.

Pois bem, voltemos ao seu olhar. Quanto a mim, olho mesmo. Meu olhar curioso filma tudo ao meu redor. Pois bem, te filmei. Ao rever as imagens gravadas, está lá nítido como um dia de sol, você me olha…

Você me olha como quem vê um desejo. Como quem vê um medo. Com um olhar doce.

Você me olha como quem quer, mas não deve. Como quem adoraria e não pode.

Você me olha como um leão que comeu vegetais a vida toda e agora está diante de um suculento pedaço de carne. Seu olhar saliva.

Então, o ônibus faz uma curva brusca e eu acordo do meu transe imaginativo. Percebo que estou perto do meu ponto, que existem outras pessoas ao meu redor. Chove lá fora.

Olha pra você de novo. Você está ali. É real. E você continua me olhando como quem adoraria que o ônibus estivesse vazio, para se aproximar, perguntar meu nome e contar piadas.

Se você me dissesse ‘oi’. Eu diria ‘sim’. E nos casaríamos na semana seguinte. Só que não.

Sozinho, às duas

São quase duas. O sono tenta me derrubar, mas o aperto no peito e os pensamentos a mil não deixam. Ouço mil vezes aquela música que apareceu ao acaso na Internet e serviu perfeitamente como uma camiseta básica da Hering. Clarice Falcão, eu me lembro…
São tantas coisas boas. Algumas ruins. O amor. Sempre ele. Se fosse possível esquecê-lo. Não é? Talvez eu só precise do colo da mãe. Mas e quando a mãe se for? Quem aliviará a dor? Quem dirá que vale a pena acreditar no amor?
Eles. Todos eles. Dizem que vale a pena. O amor. Acreditar. Nós. Eu. Será?
A vida é dura. E dói. Então, para aliviar a dor, pessoas se escolhem por amor. Para serem como chocolate em dias de TPM. As boas relações se parecem muito com brigadeiro de panela. Ser doce é preciso.
A verdade sobre amor é que para ser dois, antes é preciso ser um. Eu não aprendi ainda. Deve ser mais uma daquelas durezas da vida, como nascer, morrer ou conviver consigo mesmo sem enlouquecer. Coisas que só se pode passar sozinho.
Sozinho! Eu preciso estar sozinho.
Eles concordam. Todos eles. E já passa das duas…

Sobre leite com café

Gosto de tomar leite, com café. Bebo sempre que preciso me sentir abraçado.

Gosto desde a mamadeira e deve ser por isso que me conforta tanto.

Se preciso me dar alguns minutos de ternura em meio a essa vida dura, preencho a xícara com leite, então me ponho a colorir o leite com café.

Por fim, os coloco dentro do micro-ondas, como um grão de areia dentro da concha. Então, se reparamos bem na cor, café com leite se tornam um e ficam perolados.

Em Mogi Mirim bastava 1 min e o micro-ondas deixava o leite com café no ponto. Em Curitiba, preciso esperar 40 segundos a mais. Acho que isso explica muita coisa.